2004 era o ano. Ansiedade máxima para tirar as minhas tão esperadas férias, afinal de contas, seriam as primeiras depois de ter assumido um cargo de gestão com 20 e poucos anos. Então eis que, no ápice da minha falta de experiência, acabou sendo a pior que já vivenciei.

Explico melhor!

Todo dia, sem exagero, recebia ligações da equipe ou do meu gestor direto. Era surreal! E o mais intrigante era que uma era de manhã por volta das 10 horas e a segunda a tarde por volta das 16 horas.

Confesso que isso mexeu muito comigo, eu não aproveitei nada daquelas férias. Quando retornei, fui estudar a causa disso tudo e encontrei: concentração. Mesmo assim, algumas pessoas diziam para mim que se eles me ligavam significava que eu era importante e necessário. Já outros diziam que eu precisava delegar e foi aí que eu entendi o segredo e entrei nessa com força total.



Passei a delegar mais e tudo foi fluindo de forma mais participativa. Passei a dar mérito para cada um que concluía alguma atividade, fazendo com que a pessoa fosse até à diretoria fazer a apresentação do estudo comigo. Fomentei a cultura de sempre entregar o algo a mais. Comecei a perceber que isso tudo era um diferencial, gerava mais confiança, as pessoas da equipe se engajavam mais, davam mais ideias e soluções e se sentiam mais dona do processo e com todo esse empoderamento ficavam mais conhecidas na empresa se transformando em verdadeiros parceiros de negócio.

Isso tudo iniciado em 2005/2006 e nem sabíamos, mas estávamos praticando o chamado empreendedorismo interno ou intraempreendorismo.

O termo é uma versão em português da expressão intrapreneur, que significa empreendedor interno, ou seja, empreendedorismo dentro dos limites de uma organização já estabelecida.

É certo que o tema empreendedorismo nunca esteve tão em alta como nos últimos anos. O sonho de comandar o próprio negócio e de trabalhar em algo que realmente acredita, aliada a situação econômica delicada que o Brasil enfrenta, são os principais fatores que têm motivado as pessoas a empreenderem. O problema é que, na maioria das vezes, essa vontade fica apenas no campo dos sonhos e nunca é colocada em prática.

E por que não empreender dentro da organização em que trabalha?

Esta prática tem se tornado cada vez mais comum dentro das empresas e instituições, pois permite que os profissionais possam analisar cenários, criar ideias, inovar e buscar novas oportunidades e alternativas para que a organização tenha sempre um melhor funcionamento.

Além deste benefício para o bom andamento das empresas, a prática do intraempreendedorismo também é muito positiva para os colaboradores. Profissionais com este perfil são sempre mais valorizados pelas organizações, justamente por agregarem valor ao trabalho executado.

Atualmente, o intraempreendedor é um dos mais importantes recursos nas empresas de alta competitividade.

Isso porque ao alcançar determinado nível de estabilidade, uma organização pode perder ou ver reduzido o seu potencial empreendedor, entendido como a capacidade de inovar através da recriação e reinvenção dos processos e técnicas que a permitem encontrar novos mercados e novos produtos. Assim, o intraempreendorismo é indispensável para as empresas já estabelecidas, pois recria a cultura empreendedora interna.

A motivação dos colaboradores para incentivar o intraempreendedorismo está intimamente relacionada à cultura organizacional da empresa, ou seja, é preciso investir na criação de um ambiente favorável, adotar a postura. É importante considerar que, em uma empresa de cultura fechada, burocrática, em que as pessoas são “executoras de processos”, as conquistas pessoais estarão sempre distantes, por mais inovador e criativo que um profissional seja.

Na construção da cultura organizacional favorável ao intraempreendedorismo, também tem papel chave os líderes. Esses colaboradores representam e servem à equipe, direcionando os objetivos individuais para que sejam comuns ao time todo.

Thiago Oliveira, autor do livro “Pense Dentro da Caixa”, que trata sobre esta temática, destaca que segundo um estudo de Marcos Hashimoto, professor da Insper, apenas 15% dos colaboradores de uma empresa são naturalmente empreendedores. No entanto, segundo Hashimoto, os outros 85% podem ser perfeitamente treinados para tal.



É claro que, como dito anteriormente, existe um papel fundamental na questão cultural e das lideranças. De qualquer forma, mesmo quando não há muito espaço para isso, os intraempreendedores se destacam da multidão.

Veja abaixo as 5 características que Thiago Oliveira menciona para ver se você se enquadra:

1)  Ter o olhar do dono.

Uma das características mais importantes e que é fortemente recomendada é a tão falada “olhar do dono”. Ter essa visão significa que o colaborador encara a empresa como se ele mesmo fosse o presidente. Com essa postura, a pessoa se preocupa em olhar a empresa com um todo e não só fazer as atividades básicas da sua atribuição. Quem tem esse olhar se sente tentado a entrar de vez nos processos da empresa para encontrar as falhas, as melhorias e as oportunidades. Essa mentalidade ajuda, é claro, no crescimento profissional. Se você começar a encontrar soluções para os problemas, vai contribuir com duas coisas: resultados da empresa e com a própria empregabilidade. Afinal de contas, todos irão enxergar que você é uma pessoal que bota a mão na massa e é capaz de dar ideias interessantes e inovadoras.

2)  Ser persistente, mas não teimoso.

Esta é uma característica muito importante! Mas muita atenção na diferença entre perseverança e teimosia. O perseverante tem um norte para seus objetivos, acompanha os resultados da ação e consegue definir até onde pode ir sem se prejudicar. Já o teimoso, mesmo quando não encontra saídas para os problemas que surgem no caminho e o projeto não dá sinais de progressão, continua tentando porque se apegou demais ao empreendimento.

3)  Fazer mais do que esperam de você.

Trocando a miúde é ser proativo. Um bom primeiro passo para ser proativo é saber ouvir mais. Às vezes, temos tantas tarefas, tantas obrigações, que entramos em uma bolha e só conseguimos pensar sobre os próprios problemas. Ouvir os outros amplia nossos horizontes, e consequentemente, a ter mais ideias.

4)  Compartilhar suas experiências com os outros.

Não há inovação sem colaboração. Colaborar significa se conectar com as outras pessoas, ouvir o que elas têm a dizer e compartilhar suas experiências. Muitas pessoas têm medo de contar seus inshgts, pois podem ser roubados. Trocar informações e percepções aumenta a capacidade criativa. Cada um tem um olhar diferente e a troca pode ajudar qualquer pessoa a complementar uma ideia ou a superar um obstáculo. Numa empresa isso é muito mais importante, pois ninguém faz nada sozinho.

5)  Tirar as ideias do papel.

É preciso ter vontade de fazer e realizar. Apenas pensar no que pode ser não faz ninguém sair do lugar. Portanto, além de um bom teórico você precisa ser um bom executor. Quem tira as ideias do papel é quem faz toda a diferença.

Seguindo essas dicas, será muito mais fácil ajudar a sua empresa a desenvolver melhor o negócio, reinventar-se e, também, aproveitar oportunidades que possam estar escondidas.

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O empreendedorismo interno ou intraempreendedorismo tem uma relação muito direta com o desenvolvimento e inovação. Temáticas que convergem para a sustentabilidade de qualquer organização, principalmente nos dias de hoje e para o futuro.

Mas não podemos esquecer que a grande verdade é que cada organização deve encontrar o seu próprio caminho, estabelecendo pequenas práticas que façam com que as pessoas sintam-se parte das conquistas coletivas e que incentivem este comportamento.



Author: José Nazareno

Nazareno é atuário, perito, palestrante, escritor e mestre em Economia. Atua no segmento de Saúde Suplementar. É membro do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), do Comitê Nacional dos Atuários do Sistema Unimed e do Comitê Permanente de Solvência da ANS.