O mundo corporativo é um verdadeiro mar revolto e o que nos fará navegar nestas ondas de forma, digamos, equilibrada, é a nossa própria conscientização e aplicação do jeito “correto” de pensar no ambiente de trabalho.

Arrisco dizer que a maioria de nós já deve ter escutado aquela velha e clássica frase: “temos que ter visão sistêmica”, mas você sabe o motivo principal disso ainda não funcionar na prática?



Não funciona porque está relacionada, diretamente, à grande parte dos nossos pontos de vista e teorias que ainda estão fundamentadas no modelo linear cartesiano.

Todavia, considerando por base os desafios que não param de surgir, é necessário se ter noção das verdadeiras diferenças entre as formas de pensar.

Vou iniciar conceituando o pensamento linear ou linear cartesiano. Ele é mecânico, ou seja, toda causa tem um efeito direto e cria um mundo onde a solução deve ser imediatista. Quem pensa assim, acha que tudo tem uma solução, tal como uma questão de lógica matemática. A dicotomia toma conta de tudo: certo e errado; ganhadores e perdedores; inteligentes e ignorantes etc. Competição é uma regra clara no jogo do pensamento linear; aqui, não existe sentimentos e emoções. Desta forma, se B vem depois de A com alguma frequência, B é sempre o efeito e A é sempre a causa. Na prática, esse entendimento gera a crença errônea de que entre causas e efeitos existe sempre uma proximidade muito estreita. Por esse modelo, A só pode ser igual a A. Tudo o que não se ajustar a essa dinâmica fica excluído. É a lógica do “ou/ou”, que praticamente descarta a complementaridade e a diversidade.

Na evolução dos modelos mentais temos, em sua última escala, o pensamento complexo. Este, por sua vez, envolve sentimentos, emoções e decisões com vários critérios simultâneos e, sobretudo, quando há interesses e conflitos cruzados, inclusive, de crenças, pois, para qualquer fato da vida, subentende-se que muitos componentes estão interligados. É uma forma de pensar que aceita e trabalha com o múltiplo, o variado, o contínuo, o interligado e, especialmente, com o inesperado, o aleatório e o incontrolável. Esse modelo mental não nega o linear, ele vai além, incluindo a relação interligada entre o homem, a máquina e ambiente. O mundo das certezas dá lugar à necessidade de assumirmos os paradoxos e convivermos com o princípio da incerteza. O pensamento complexo nos ensina, também, a ter um otimismo realista e a ciência de que, ainda que tudo se apresente como perdição, não podemos estar certos do pior. É a lógica do “e/e”, que inclui a complementaridade e a diversidade.

Sabemos que a complexidade está presente em todos os fatos e fenômenos da vida, desde os mais simples aos mais sofisticados, até mesmo nas decisões da sua vida pessoal e nas do mundo corporativo. Apesar disso, os líderes ainda vivem sob a vigência do pensamento linear, em que a regra é preservar o poder, o controle, ordenar tarefas à equipe e culpá-los caso os resultados não sejam satisfatórios.

Com um olhar no futuro, em vez de controlar, cabe ao líder melhorar o relacionamento entre a equipe e criar ambiente que estimule o diálogo e a diversidade de ideias, utilizando o conhecimento compartilhado para que os liderados especializem-se cada vez mais nos processos, e não apenas executá-los. As pessoas possuem uma necessidade crucial de entender, de fato, a razão e a contribuição do seu trabalho para os objetivos estratégicos das organizações.

Quando se fala em erros, a linguagem linear estimula a cultura de “achar os culpados”; já a linguagem complexa estimula a cultura de “procurar a solução”. No dia a dia isso faz uma diferença muito grande, pois, quando os serviços são executados por pessoas que ajudam na formulação de suas estratégias, etapas e processos, o comprometimento é a consequência natural, assim como os bons resultados.



É preciso mudar a cultura, exercitar diariamente o pensamento complexo, empoderando as equipes, e criar uma estratégia inteligente para lidar com a imunidade do sistema corporativo linear obsoleto. Esse novo modelo deve ser tocado em paralelo e multiplicado até que a nova cultura seja mais forte que o sistema tradicional, e assim o permita sobreviver.

E a chave para este movimento de mudança está no modelo mental das lideranças, que tem se mostrado mal preparada tanto nas empresas tradicionais e quanto para as novas, como as Startups. Isso não tem relação direta com a formação educacional, seja em escolas, universidade, MBAs, mestrados e/ou doutorados; tem a ver com disrupção, coragem e capacidade de engajar pessoas. Porém, os atuais líderes que estão no comando evitam as mudanças, pensam de um jeito atrasado e ainda não priorizam a inovação.

E por falar em inovação, não adianta criar um negócio extraordinário em torno de uma plataforma se quem está por trás disso tem mente obsoleta ou pensamento linear. Não há necessidade de ir até Vale do Silício nos EUA para entender e criar o pensamento complexo. Tudo começa de dentro para fora, na sua mente, no seu comportamento.

Fica a dica.



Author: José Nazareno

Nazareno é atuário, perito, palestrante, escritor e mestre em Economia. Atua no segmento de Saúde Suplementar. É membro do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), do Comitê Nacional dos Atuários do Sistema Unimed e do Comitê Permanente de Solvência da ANS.