Após abrir meus próprios negócios, comecei a ter uma sensação que nunca havia tido ao trabalhar para alguém. Notei que as pessoas da minha equipe nunca me contrariavam. Pelo contrário, eu podia falar a coisa mais estúpida possível, que elas iriam concordar e ainda elogiar.

“Então… estou pensando em comprar desse fornecedor desconhecido e que todo mundo está reclamando”

“Ótima ideia! Concordo que devemos fazer isso!”



Como nunca fui uma pessoa cheia de mim, entendi rápido por que isso acontecia. Ninguém gosta de contrariar o “chefe”. Aliás, a grande maioria das pessoas detesta falar um “não” ou dar um feedback construtivo para quem quer que seja.

Vejo isso até quando recebo alguns comentários nos meus artigos:

“Daniel, peço mil desculpas, mas você escreveu tal palavra errado”.

“Não me leve a mal, mas eu discordo um pouco da sua visão. Só um pouquinho” (daí o cara fala algo totalmente oposto à minha opinião).

Essas pessoas estão pedindo desculpas por que? Se ninguém me avisar dos meus erros eu continuarei errando e isso é péssimo para mim! Os artigos que escrevo não são um monólogo, mas um espaço para troca de ideias. É essa experiência que nos faz crescer.

Já notei que isso é uma característica marcante do brasileiro. Em outros países é algo muito menos presente. Na Alemanha, por exemplo, os caras serão extremamente francos com você. No começo é difícil, mas depois você entende que é melhor assim.

Atualmente, a colaboração no trabalho está sendo totalmente modificada pelo peso das nossas expectativas. O que deveria ser um processo desorganizado de ida e volta, muitas vezes vira vítima do nosso desejo de manter as coisas harmoniosas e eficientes.

Perdemos, com isso, a destruição criativa, conceito desenvolvido por Schumpeter. O politicamente correto e o medo de desagradar simplesmente impedem inovações, uma vez que ideias param de ser debatidas. E menos ideias debatidas significa que as piores serão adotadas.



Então, por que continuamos com essa cultura? E o pior: qual o grave problema que ela representa tanto para as empresas quanto para os próprios funcionários?

A colaboração precisa desesperadamente de mais de conflito.

Você provavelmente foi ensinado a enxergar a colaboração e o conflito como opostos. Na cultura brasileira, a linguagem e as imagens do trabalho em equipe são ridiculamente utópicas. Como remadores em perfeita sincronia.

Com certeza você já ouviu “estamos no mesmo barco”. Para ser um bom jogador de equipe, você deve “caminhar na mesma direção”. Essas versões idealizadas de trabalho em conjunto estão tornando muitas equipes impotentes, frágeis.

Não existe sentido algum trabalhar em conjunto se não há uma certa dose de tensão ou conflito. O que precisamos é uma colaboração onde a discordância melhore o valor das ideias, exponha os riscos inerentes e leve mais confiança aos membros da equipe.

Imagina se o exemplo do começo do artigo é real e eu decido comprar do fornecedor e tomo cano? A empresa teria um grande prejuízo porque um funcionário preferiu ser amiguinho e sorridente.

É hora de mudar sua mentalidade sobre conflito. Deixe de lado esse pensamento de que todo conflito é destrutivo e abrace a ideia de que o conflito produtivo cria valor. Se você for capaz de ter uma mente aberta, fica bastante claro que trabalhar em equipe é desnecessário se os membros concordarem em tudo.

Nunca se esqueça disso:

Onde todos pensam da mesma forma, ninguém está pensando muito.

As técnicas para você desenvolver esse costume

Não discordar de algo que você acha que está errado mata a inovação. Para maximizar o benefício da colaboração, você precisa divergir antes de convergir.

Entretanto, infelizmente, nossa aversão ao conflito é tão arraigada, que encorajar o desacordo, ainda que de forma sutil, certamente é mal visto por muitas pessoas. Já até espero os comentários negativos.

É possível mudar essa situação?

Sim! Essas 3 técnicas específicas ajudarão as pessoas a abraçar o conflito produtivo:

Primeiro, discuta os diferentes papéis na equipe e destaque o que cada papel trará à conversa. Enfatize como todos estão lá para conduzir abordagens diferentes.

Por exemplo, se você estiver em uma reunião com vendas e produção, a pessoa de produção defenderá maior controle e eficiência. Já a vendas defenderá o oposto: flexibilidade e agilidade.

Quando estão fazendo seu trabalho bem, os dois setores entram em conflito para obter-se uma solução otimizada. Um focará no cliente e o outro na eficiência da empresa. Ambos os lados são importantes, portanto é necessário achar o ponto de equilíbrio.

Em segundo lugar, avalie a personalidade de cada um para destacar diferenças no que as pessoas estão prestando atenção.

Membros da equipe possuem perspectivas diferentes sobre uma questão com base em suas personalidades. Portanto, procure tensões que possam derivar da diversidade entre os colaboradores. Preste atenção especial se tiver um ou dois que estão em minoria na equipe. Eles deverão ter a responsabilidade de contrariar os demais, caso o consenso da equipe se tornar viesado.

Esse papel de “advogado do diabo” é importante. Não à toa o termo surgiu quando o Papa indicou uma pessoa para contrariar as evidências da santidade do processo de beatificação. Questionar a veracidade das evidências e propor explicações alternativas é uma ótima forma de encontrar falhas nas ideias e pensamentos.

A terceira técnica para encorajar o conflito produtivo é estabelecer regras básicas em torno dos eventuais desentendimentos. Defina junto à equipe quais os tipos de comportamento que serão válidos e quais não serão permitidos.

Também não se esqueça de deixar claro que se alguém discorda de outra pessoa, não será por maldade, mas porque é benéfico para a empresa.

Por fim, é fundamental ter em mente que dar permissão para as pessoas não significa que elas de fato farão isso. Se você realmente quiser criar um conflito criativo na sua equipe, você precisa incentivá-las e, no começo, possivelmente tornar obrigatório.

Espero que consiga transmitir essa mensagem para sua equipe e, com o tempo, evoluir os resultados obtidos. Depois conta como foi!



Botão - Negócios com Café

Author: Daniel Scott

Economista, Administrador, Consultor, Professor e Escritor. Busco democratizar a educação sobre empreendedorismo e administração através da produção de conteúdos informativos e de qualidade.