“Uma fórmula para o sucesso? É bem simples, na verdade: dobre a probabilidade de fracasso da sua empresa. Você pensa que a falha é um inimigo do sucesso, mas não é, de jeito nenhum. Você pode ser desencorajado com os erros ou aprender com eles, então, siga em frente e continue falhando. Erre o máximo que puder. É aí que você vai conseguir o sucesso”

Esta é uma frase de Thomas John Watson, que foi um empresário americano (EUA), presidente da Computing Tabulating Recording Company, empresa que deu origem à IBM, uma das poucas empresas da área de Tecnologia da Informação com uma história contínua que remonta ao século XIX.



Então, conectando suas palavras com a proposta aqui, dou início a mais este artigo reforçando o que todos nós sabemos ou, pelo menos, temos uma boa noção: nossas vidas são cheias de altos e baixos e não existe uma linha reta direta para o sucesso. Mesmo sabendo disso, existe um fato real: ninguém gosta de errar. Fracassos não são bem vistos!

O grande segredo está na perseverança e, principalmente, nos aprendizados associados aos erros. Conseguir se adaptar e aprender com os percalços da trajetória é, sem dúvida alguma, o mais importante combustível, uma vez que os fracassos existem e virão, com toda a certeza.

 ALGUMAS DICAS

 Neste contexto, sabendo de tudo isso, como podemos cultivar esta resiliência tão necessária, evitando, assim, sentimentos de incapacidade e vergonha?

  • Tenha calma! É muito importante ter o cuidado para perceber e entender que aquele fracasso foi pontual (ou no relacionamento, ou nos negócios, ou no trabalho etc.), e não se deixar abalar achando ser um(a) completo(a) fracassado(a);
  • É também importante entender que é preciso ter um momento para reflexão no que aconteceu e um tempo para o seu sofrimento, mas tenha cuidado para não estender demais esse período. Ele é necessário, porém, deve ser o suficiente para não o(a) impedir de seguir em frente;
  • Na maioria das vezes, diante dos fracassos, achamos que o melhor a fazer é nos isolarmos totalmente, seja por vergonha, seja por medo do julgamento. Entretanto, fazer novos planos com as lições aprendidas e pedir ajuda a amigos, família, conselheiros, terapia etc. para sair dessa situação poderá fazer uma grande diferença na sua evolução;
  • Tentar ver o lado bom de tudo o que ocorre na sua vida, mesmo acontecendo algum fracasso, é um desafio e uma quebra de paradigma. Certamente não é fácil, pois a grande maioria não foi treinada para errar e, tampouco, saber lidar com os erros. Em vez de olhar o fracasso de forma negativa, tente adotar uma associação mais positiva. Tornar esse tipo de pensamento um hábito pode ajudar muito;
  • Não pare de sonhar, caso contrário, estarás deixando de viver também! Sonhe grande e deixe isso te energizar para os próximos passos. Os obstáculos certamente virão, mas trabalhar sua mente com as possibilidades de erros e acertos durante o percurso te dará uma perspectiva muito mais ampla, preparando-te para tudo. Este propósito mais claro dificultará o teu desejo de desistir.

COMO UMA DAS MAIORES EMPRESAS DO MUNDO LIDA COM ISSO?

O livro Como o Google Funciona traz consigo um apanhado de lições muito importantes e atuais sobre práticas de gestão nesta época que vivemos, de rápidas mudanças tecnológicas. Dentre elas, destacam-se:

  1. Faça planos de curto prazo. Dois anos é um prazo em que muita coisa pode mudar no mundo dos negócios. Eles entendem que planos superiores a dois anos estimulam mais ainda a presença de variáveis externas, algumas até incontroláveis.
  2. Priorize a qualidade. Antigamente, antes da internet, quando havia escassez de informações, de distribuição e de opções, as empresas podiam dedicar 30% do tempo para a construção de um novo produto ou serviço e 70% para divulgá-lo. Como todos estes fatores são abundantes nos dias de hoje, o tempo a ser mais investido hoje em dia é na experimentação rumo à qualidade do que na divulgação.
  3. Simplifique os processos. A grande parte dos processos existentes nas empresas hoje em dia vive ainda várias décadas atrás, ou seja, em uma época em que os erros custavam muito caro e apenas os gestores mais importantes tinham acesso a informações estratégicas. Tudo isso servia na tentativa de mitigar os riscos e se concentrar mais nas decisões na diretoria. O Google é diferente: estabeleceu parâmetros para não deixar o organograma engessar muito no o dia a dia. Um destes parâmetros é a “regra dos sete”. Isso significa que os gerentes podem ter, no máximo, sete pessoas diretas em sua equipe, pois com muita gente para administrar, o gerente não teria tempo para se envolver com os maiores detalhes de cada tarefa executada.
  4. Contrate executores. Segundo o Google, é mais vantajoso para uma empresa ter funcionários que façam as coisas acontecer, mesmo que seja errando, do que aqueles que apenas planejam. A este perfil, os autores do livro dão o nome de “criativos inteligentes”. Eles são mais intelectualmente versáteis ao combinar habilidades técnicas com tino comercial e talento criativo.
  5. Crie ambientes colaborativos. Os escritórios do Google são projetados para facilitar a livre circulação de ideias; não o isolamento e o status. Na maioria das empresas, quanto mais alguém sobe na hierarquia, mais espaço e silêncio tem. No Google, do estagiário ao presidente, todos ficam amontoados em salões abertos e barulhentos. O resultado costuma ser uma relação de trabalho mais integrada e produtiva. É claro que os funcionários devem ter a opção de se retirar para um lugar sossegado quando precisam de privacidade. Mas, quando voltam para suas mesas, eles devem estar cercados por seus colegas.

Das cinco lições explanadas acima, podemos perceber que duas delas mencionam a palavra erro de forma direta:



“A grande parte dos processos existentes nas empresas hoje em dia vive ainda várias décadas atrás, ou seja, em uma época em que os erros custavam muito caro e apenas os gestores mais importantes tinham acesso a informações estratégicas.”

e

“Segundo o Google, é mais vantajoso para uma empresa ter funcionários que façam as coisas acontecer, mesmo que seja errando, do que apenas aqueles que apenas planejam.”

Neste ano de 2018, mais precisamente no mês de maio, li uma matéria intitulada de Como o Google aprende com o Fracasso. Na verdade, a empresa divulgou seu método interno de lidar com os erros, que será melhor detalhado a seguir.

O MÉTODO DA AUTÓPSIA

O método chamado de “postmortem, que, na tradução direta, significa “autópsia”, possui três fases, as quais, segundo o Google, podem ser aplicadas em qualquer empresa, a saber:

1ª fase: identifique os erros mais importantes que ocorrem na empresa;

2ª fase: então, “registre” as falhas e reflita sobre as lições aprendidas; e

3ª fase: não busque culpados nesse processo.

Você enxerga alguma novidade nas fases acima?

Eu arrisco dizer que não, pois elas fazem parte do Sistema Lean, filosofia de gestão inspirada no modelo Toyota, desde a década de 80, que divulga a ideia de que se devem considerar verdadeiros tesouros os problemas que ocorrem no cotidiano nas empresas; envolvem erros, falhas e qualquer outro tipo de desvio em relação ao desejado. Nada deve ser escondido ou camuflado. É sabendo como lidar e aprender com os problemas e erros que as organizações realmente crescem.

O Lean também sempre enfatizou a importância de identificar as causas, e não os culpados, melhorando os processos. A máxima Lean é: ao se deparar com problemas, pergunte 5 vezes “por que”, e não 5 vezes “quem”. Na verdade, o conceito Lean adotou e aperfeiçoou essa ideia dos conceitos de qualidade total, que foram desenvolvidos inicialmente no Japão, na década de 70.

A mentalidade Lean se utiliza de diversos métodos para que os problemas sejam expostos assim que ocorrem e antes que se tornem grandes. Assim, as pessoas imediatamente envolvidas na base podem buscar a solução rápida desses problemas, restabelecendo a normalidade aos processos, de forma a manter a entrega de valor aos clientes com o mínimo de variação.

No Google, a 1ª fase é identifique os erros mais importantes que ocorrem na empresa. Sem dúvida, critérios de priorização são fundamentais, uma vez que é impossível se atacar todos os problemas existentes de uma vez. Muitas empresas usam o clássico Pareto (20% das causas possuem 80% de impacto), mas é bom ficarmos atentos que não são apenas as grandes falhas que causam prejuízos às organizações. Muitos pequenos problemas, se somados, também fazem enormes estragos no dia a dia se comparados a um único grande erro. Além disso, esses pequenos ficam mais escondidos e, com o tempo, vão se tornando maiores, mais complexos e difíceis de serem resolvidos. Assim, o melhor a fazer é encontrá-los e atacá-los enquanto são pequenos, e antes que fiquem incontroláveis. Por isso, no sistema Lean, todo e qualquer problema deve ser enfrentado, em diferentes níveis e com métodos adequados.

Já a 2ª fase no Google é então, “registre” as falhas e reflita sobre as lições aprendidas. Tudo bem que refletir é necessário, mas é preciso fazer o algo mais, ou seja, procurar, de fato, as “causas raízes” dos erros. É comum vermos empresas achando que resolveram problemas simplesmente porque os revelaram e deram alguma solução. Contudo, de repente, as falhas retornam porque não se conseguiu ou nem se tentou entender melhor o problema para eliminar suas causas raízes. No sistema Lean há um método científico de resolução de falhas cuja base inicial é caracterizar bem o problema e buscar a causa raiz.

E, por fim, a 3ª fase no Google é não busque culpados nesse processo, e para que tudo isso ocorra no dia a dia é preciso tirar a culpa das pessoas e focar nos processos. Há essa visão no método Google. Como se vê, é preciso dizer que isso deve ser o ponto inicial, fundamental e, mais do que isso, exige uma grande mudança cultural e de comportamento da liderança. São os líderes que devem mudar, apoiando as pessoas, ensinando-lhes a resolver problemas com método científico e dando o exemplo. É preciso criar essa cultura básica e fundamental dentro da empresa, que vai contra a cultura dominante da gestão tradicional, que sempre responsabiliza pessoas, quando, na verdade, os processos é que são ruins.

O Google, com toda a sua magnitude, nos fornece uma confirmação rica ao apresentar um método simples, colocando no foco a oportunidade de aprender com os erros. Quem souber lidar com eles é algo muito valorizado em ambientes inovadores e com muitas incertezas, o que é fundamental para toda e qualquer empresa nos dias de hoje, que quer se manter pronta para os desafios do futuro.

Portanto, o erro deve ser visto como uma forma de aprendizado e um alerta para a necessidade de melhoria contínua, desmitificando a tese de que pessoas e empresas de sucesso nunca erram.

Loria Oliver, empreendedora americana, reforça com a frase: “O Fracasso deveria ser celebrado por suas lições, tanto quanto o sucesso é celebrado pelo prestígio.”



Author: José Nazareno

Nazareno é atuário, perito, palestrante, escritor e mestre em Economia. Atua no segmento de Saúde Suplementar. É membro do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), do Comitê Nacional dos Atuários do Sistema Unimed e do Comitê Permanente de Solvência da ANS.