Inteligência Emocional – Uma habilidade a ser desenvolvida

Embora o conceito de Inteligência Emocional (IE) nos leve ao passado, mais precisamente ao século XIX, quando Charles Darwin (1809-1822) se referiu à necessidade da expressão emocional para a adaptação e sobrevivência dos seres, passando por outros estudiosos como Thorndike (1910-1990), o termo se popularizou na década de 1990 após o lançamento do livro “Inteligência emocional – a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente” de Daniel Goleman.




Nessa obra, Goleman menciona os seguintes componentes da IE:

  •  Capacidade de criar motivações para si mesmo e de persistir num objetivo apesar dos percalços;
  • Capacidade de controlar impulsos e saber aguardar pela satisfação de seus desejos;
  • Capacidade de se manter em bom estado de espírito e de impedir que a ansiedade interfira na capacidade de raciocinar;
  • Capacidade de ser empático e autoconfiante.

Salovey e Marley, no artigo “Inteligência emocional”, nos trazem uma definição bastante elaborada que define as aptidões da IE em cinco domínios principais:

  • Conhecer as próprias emoções: reconhecer um sentimento assim que ele ocorre;
  • Lidar com emoções: exercitar a capacidade de autoconsciência para saber qual o melhor tratamento para cada um dos sentimentos identificados;
  • Motivar-se: colocar as emoções a serviço de um objetivo, e dessa forma conseguir centrar a atenção e estimular a criatividade;
  • Reconhecer emoções nos outros: exercitar a capacidade do que se chama empatia, focando em ler os sentimentos do outro e ouvi-lo em sua essência.
  • Lidar com relacionamentos: a arte aprender conviver com as emoções que se reconheceu no outro.

É comum a praticamente todos os autores que tratam do tema da IE, diferenciá-la do que conhecemos como QI. O Quociente de Inteligência é uma metodologia que visa mensurar, de forma objetiva, as capacidades cognitivas de um sujeito. Seria algo como uma “inteligência absoluta”.

A IE não é uma visão alternativa ou uma oposição ao QI. 

Goleman conceitua que são tipos diferentes de inteligência: há pessoas de alto QI com baixa IE e vice-versa, bem como pessoas com altos níveis em ambos ou baixos níveis em ambos.

Quando publicou sua obra, Goleman mencionou que, ao contrário dos testes aplicados para mensuração de QI, não havia formas para se medir a IE de modo objetivo. Atualmente é possível encontrar diversos testes, das mais diferentes fontes.

O tema da IE hoje permeia as organizações, bem como o reconhecimento de diversas outras dimensões da inteligência, como a social, que seria um desdobramento da capacidade de se relacionar e conviver em grupos. Também podemos ver a subdivisão da inteligência objetiva em inteligências múltiplas, proposta nas diversas obras de Howard Gardner.

Uma vez que reconhecemos a importância da IE, é fundamental termos em mente que é possível desenvolvê-la, seja no contexto pessoal ou profissional. É uma habilidade crucial a qualquer empreendedor e também para aqueles que almejam carreira executiva e cargos de liderança.

É comum vermos equipes formadas por pessoas de gerações distintas, o que torna o desafio da convivência ainda mais intenso e complexo. Os anseios e motivações são bem diferentes, bem como as competências técnicas apresentadas por cada um dos integrantes. Vivemos na era das facilidades de acesso a informação, o que era útil ontem pode se tornar obsoleto amanhã. Além disso, ainda há diferenças de maturidade e de agilidade no desenvolvimento.

Remetendo-nos aos autores que se colocaram a estudar o tema inicialmente, é possível desenhar um plano de desenvolvimento que contemple todas as dimensões da IE.

Comece trabalhando o autoconhecimento

O que você sabe sobre você mesmo? Muitas pessoas têm dificuldade para responder aquele questionamento de processos de seleção: Cite três defeitos e três qualidades. É claro que alguns até tem essa autoconsciência e na verdade não sabem como responder ao recrutador de modo estratégico, sem se queimar. Mas a maioria simplesmente não saberia o que dizer mesmo se pudessem ser totalmente sinceras.

Ainda prevalece a ideia errada de que quem deve nos avaliar são os outros.

Uma forma começar a se identificar é fazer um trabalho de percepção com amigos, colegas e conhecidos. Peça a eles que te digam, de modo anônimo, sobre suas impressões sobre você. Depois faça uma análise profunda e reflexiva a respeito delas. E lembre-se que não adianta se iludir, caso não concorde com algo que foi dito. De alguma forma, por algum motivo, aquela é a impressão que o outro tem de você. Não adianta mentir para si mesmo.

Faça também um mapeamento de suas competências:

  • Conhecimentos, sejam técnicos, acadêmicos, teóricos ou tácitos;
  • Habilidades, relativas ao modo como você faz o que tem que ser feito, as suas experiências em fazer;
  • Atitudes, sua capacidade de iniciativa e acabativa, ou seja, o modo como inicia e termina seus projetos, as suas motivações em querer fazer.

Descubra o que te tira do sério, o que te abala psicologicamente, o que te deixa estressado e desenvolva válvulas de escape. Não se trata de apenas internalizar e não transparecer tais emoções, com o intuito de não afetar o outro. De nada adianta guardar para si e se tornar uma bomba-relógio, prestes a explodir. É necessário que esses sentimentos sejam realmente digeridos e superados.

Uma vez que você conseguir evoluir nos aspectos que dizem respeito a você mesmo, identificando suas formas de sentir e as reações ocasionadas por cada sentimento, trabalhe no que diz respeito ao modo como se relaciona com os outros. Para atingir um nível de excelência em IE é absolutamente fundamental aprender a lidar com o outro.

Trabalhe com modelos de feedback, seja o mais transparente e objetivo possível. As pessoas sentem confiança quando seus líderes conseguem fazer com que se sintam parte integrante do todo.

Consiga estabelecer meios de identificar as características de cada uma das pessoas com quem convive e a melhor forma de aproveitar o potencial daqueles com quem você se relaciona. Tente sempre entender quais são os problemas e dificuldades enfrentadas por alguém, se colocando de fato no lugar dele, antes de tomar qualquer decisão. Pratique verdadeiramente o exercício da empatia.

Aprenda a delegar, tendo em mente o alcance dos objetivos – da empresa, da área, da própria equipe – colocando cada um no lugar onde tem mais possibilidades de se sobressair, negociando as posições, mantendo a todos engajados. Caso haja conflitos, tente ser positivo e propositivo, inserindo as pessoas na resolução – existem inúmeras formas de fazê-lo.




Leia os ambientes e a linguagem-não verbal daqueles que o cercam. Elogie em público e chame atenção de forma privada. É seu papel estabelecer uma conexão com o outro e para tanto você deve estar preparado para ter controle sobre o que é dito, seja por palavras, seja por comportamentos e sinais corporais.

Para que observe evolução de fato em todos esses aspectos, você precisa praticar. De nada adianta ficar apenas nas intenções.

Habilidades só são desenvolvidas quando fazemos e aprendemos a fazer. A Inteligência Emocional deve ser praticada diariamente.

Fontes:

GOLEMAN, Daniel – “Inteligência emocional – a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente” – Ed. Objetiva, 1995.

SALOVEY, Peter; Mayer, John – “Inteligência emocional” – Artigo, Revista Imagination, Cognition and Personality, 1990.