O que aprendi na primeira vez em que fui demitida.

Todos se pronunciam nas redes sociais como se nunca tivessem passado por um problema, perrengue ou dificuldade.

É status hoje em dia dizer o quanto se é bom. E todo mundo quer ser melhor do que o outro e fazer com que todos creiam que ele nunca falha.

Há perfeição em todos os passos e atos e nunca nada deu errado em termos de carreira. Quanto disso vemos por aí! Diariamente.

Como diz a antiga canção de Chico Buarque:



“Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem.”

Pois bem, à exceção da bailarina, nossas vidas são feitas de coisas boas e outras nem tanto; me recordo bem da minha primeira demissão. Tempos depois encontrei meu Diretor à época, que pediu mil desculpas pelo que havia decidido: me demitir.

Fato é que já havia ocorrido e ficado no passado, era possível perdoar, mas não voltar ao tempo. Porém, era possível tirar algo daquela experiência. Disso sim eu me orgulho, das lições que levei daquela situação.

Longe de procurar culpados – normalmente temos 2 lados ou até mais em uma história, gostaria de compartilhar o que aprendi e o que, passados tantos anos, ainda venho aprendendo com aquela primeira situação. Espero poder ajudar, sendo esta a minha intenção em tudo o que compartilho.

É bom ser verdadeiramente humano, errar, acertar, agradecer, se entristecer. Seguir adiante.

Faz bastante tempo, era minha primeira experiência em uma empresa multinacional e eu já estava há algum tempo ali. Era feliz, tirava meu sustento dali e acreditava que tudo caminhava para o melhor.

Independente do motivo, nunca ficamos tranquilos quando somos demitidos – até quando pedimos demissão, ficamos desconfortáveis, algumas vezes.

Me recordo de ter passado mais de 6 horas seguidas juntando as minhas coisas, tentando fazer “a ficha cair” e acreditar que aquele momento era real. Muitos, mas muitos, se despediram com pesar e muitas luzes foram apagadas, enquanto eu juntava coisas…

Recordo também de mal ter condições de carregar tanta coisa que havia na minha mesa – aquele local era minha vida, tinha muito livro,  documentos, pastas, agendas, cadernos, informações, enfeites de mesa!

Precisei da carona de um amigo até em casa pois, não conseguiria carregar tudo sozinha.

Me lembro bem de acordar no dia seguinte e da sensação que tive. Sempre amei trabalhar, produzir e me sentir útil e naquele local, eu estava no auge da carreira. So crescendo e aprendendo. Era feliz.

Acordei mal, passei mal muito tempo e talvez por meses – até me recolocar novamente, ainda vinha sentindo as sensações do momento da demissão. Foram dias terriveis. Assustadores.

Considerava que nada teria para aprender daquele caso, que nada poderia carregar de útil ou de aprendizado, que somente havia acontecido um mal e que ele era irreversível. Mais ainda, que lição nenhuma eu poderia tirar da demissão. Fiquei com raiva por muito tempo! Fiquei me sentindo diminuída e injustiçada.

Me recordo de ter entrado em outra empresa, na sequência, e de ficar muito insegura por alguns meses. Ficar tensa pensando que aconteceria de novo, pela nova casa e pelas novas avaliações que viriam dali. Passei a ficar ressabiada, preocupada.



A empresa antiga era realmente uma casa para mim. Fiz amigos e até um namorado por ali. Aliás, sobre isso, leia também este artigo: https://www.lucianevecchioconsultora.com.br/carreira-empregabilidade/onde-se-ganha-o-pao-nao-se-come-a-carne-sera/87

Se posso dizer que aprendi algumas coisas, o fato de estar ciente de que o local de trabalho não é nossa casa foi um deles. Aprendi que devemos fazer sim do local de trabalho o melhor lugar possível, mas, nunca nosso porto seguro, o lar ao qual nunca abandonaremos, inabalável, que nunca nos deixará. Um local para o qual levamos – e deixamos – nossas coisas.

Com o tempo, aprendi a não deixar mais tantos objetos na mesa, nas gavetas e nos armários. A entender que aquele local é passagem e que amanhã podemos não estar mais por ali.

Aprendi a não acreditar que as coisas são imutáveis, que cheguei ao topo e que daquele local/empresa, depende minha vida e até minha sanidade. Que ali farei meu futuro e aposentadoria.

Mais uma coisa que aprendi: podemos até ter amigos no local de trabalho, mas este não é o objetivo primeiro. Eles somem sim e nem é por escolha, a correria afasta o que a rotina do dia a dia, unia.

Conquistei o aprendizado da maturidade, de ter humildade para me avaliar melhor e diariamente, criteriosamente, conhecendo minhas qualidades, mas também minhas oportunidades de melhoria. Aprendi a não ter apenas orgulho das minhas conquistas e fazer daquilo minha zona de conforto, mas a olhar para o futuro e planejar mais passos na minha carreira. Planejar o “depois daquele lugar”, mesmo que ainda esteja nele.

Com o tempo, aprendi que mesmo tendo sido muito doloroso, foi uma das experiências que mais me ensinaram na vida, daquelas que podemos tirar inúmeras lições – algumas delas estou compartilhando aqui com vocês.

Enquanto escrevo, revivo um pouco aquele momento. Mas, o que é realmente bom é que mesmo com a dor, o aprendizado foi ainda maior. Ainda hoje, ele é enorme.

Aprendi, no limite, a entender a dor do outro, a ter ainda mais empatia para, no futuro, ser Consultora de Carreira. Aprendi a reconhecer limites e a me valorizar, assim ajudando a que outros pudessem também aprender a se valorizar.  Nas sessões de coaching que aplico, sou muito mais capaz de ajudar o cliente a aumentar sua performance, saindo de onde está para rapidamente alcançar patamar mais elevado.

Consegui compreender que todos podem sair de uma situação dolorosa de demissão e “dar a volta por cima”. Que todos, sem exceção, têm condições de se reavaliar e mudar. E mudar radicalmente. Hoje em dia compartilho e ensino nas minhas atividades diárias, muitos aprendizados que começaram com aquela demissão.

Se eu nunca tivesse passado isso, não poderia compartilhar hoje da mesma dor do outro e talvez não conseguisse ensinar tão bem o que é planejamento de carreira e como fazê-lo, de forma sábia e madura.

Posteriormente, estava muito mais preparada para fazer avaliações e entrevistas, podendo conhecer novos universos e pessoas. Ampliar meus horizontes.

Dali surgiram muitas oportunidades de aprendizado técnico, de desenvolvimento de capacidades.

Também aprendi a acreditar mais em mim mesma, nas minhas forças e possibilidades.

O mais curioso é que depois desta experiência, passei por tantas outras reesruturações e perdi tantas outras vezes o emprego junto de muitas outras pessoas, no mesmo dia, que já havia aprendido a sair apenas com uma mochila e nada mais. Não juntava mais coisas na mesa e muito menos juntava certezas de que não teria sucesso em outro lugar.

Todas as situações posteriores puderam ser vivenciadas com muito mais tranquilidade e de forma mais resiliente. Acreditava que o ciclo havia se encerrado, dizia tchau e seguia adiante. Havia a dor, mas não mais as certezas do passado, aquelas que reunimos como pedras, que carregamos como se fossem a única verdade da vida, a única possibilidade.

Nâo me tornei fria, mas aprendi a dar o devido valor à cada experiência, local, liderança e, principalmente, a dar o peso devido a cada coisa, sabendo trabalhar a emoção e deixá-la de lado no momento certo.

Aprendi que líderes são humanos e, graças a isso, posteriormente e ainda hoje em dia, treino muitos líderes, com muito mais humanidade. Reconheço suas dores, angústias e limitações. Sei o que vivem e como sair de cada “perrengue”.

Aprendi a entender que as empresas, processos e muitas outras coisas que circundam o universo de uma corporação, pode ser falhas e o são.

Reconheci que sou capaz de passar por muitos locais, mas ainda manter a minha essência.

Com isso, também aprendi a ser mais dinâmica e a ter jogo de cintura, me adaptando às mudanças de projeto, cenário e pessoas e conseguir rapidamente passar a dar resultado, de forma célere.

Consegui assim, ser Consultora de RH e atender a várias empresas e clientes, simultaneamente.

Consegui parar para analisar criteriosamente meu currículo e reformulá-lo. Começava aqui o trabalho de revisão de material, que persiste de forma ainda mais aprimorada, até hoje.

A minha dica ao compartilhar tudo isso é para que você saiba que é possível passar pelas experiências mais dolorosas possíveis e sair vivo, mais maduro, mais esperto, mais capaz.

Para quem está vivendo isso hoje, apenas convido a que respire, reavalie, não viva de passado e planeje seu futuro, identificando não apenas o plano B, mas o C, o D e as demais letras do alfabeto.

Saiba utilizar, desenvolver e identificar a sua capacidade de empreender, não apenas para sair vendendo algo, mas para ter possibilidade de nunca ficar na mão, sempre avaliar novos cenários, não se apegando ao que teve ou ao que ainda tem hoje, principalmente se hoje você só tiver dor e mágoa.

Se precisar de ajuda especializada e de um serviço humano, respeitoso, ético e experiente, fale comigo!

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Se for copiar, dê crédito à autora (eu!).

#LucianeVecchioConsultora

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