Uma cliente me procurou para contratar um pacote revisão de CV e construção de perfil campeão LinkedIn.

Os meus clientes sabem, eu os faço pensar muito sobre suas carreiras, não é uma simples revisão. Digo sempre que é uma sessão de Consultoria de Carreira gratuita.

Sim, dá trabalho! E o esforço não é só meu, o cliente trabalha em conjunto.

Esta pessoa encaminhou o CV antigo e, para tudo o que eu solicitava, tinha sempre uma desculpa diferente, falta de tempo, filho doente, mãe precisando dela, computador quebrado, internet lenta. Os dados eram sempre passados de qualquer jeito, sem comprometimento, com certa agressividade e muito desdém.

Eu não faço um trabalho de apenas dizer o que a própria pessoa tem que mudar em seu material, eu reviso e construo mesmo, de ponta a ponta. Ou seja, para construir algo que “venda bem” aquele cliente, ele contribui o tempo todo, pensa, troca, analisa, escreve, repensa.



É como construir um prédio, sabe? Da base ao telhado. É um trabalho objetivo, mas também, artesanal, personalizado.

Eu me sentia lidando com uma pessoa em início do período escolar, ou um adolescente um tanto quanto rebelde.

Com muito custo e paciência (muitaaaaaaaa) eu consegui algumas respostas. Poucas, mas, acreditei que com aquilo eu poderia fazer o meu melhor por ela, que na verdade não me parecia querer o melhor para si mesma naquele momento.

Foi difícil. E eu pensava como mais poderia ajudar, o que mais conseguiria fazer, quais os problemas pelos quais ela estava passando. Ofereci uma sessão, tentei contato. A pessoa era resistente.

Montei um bom material com os poucos recursos que tinha. Fiz seu LinkedIn se tornar campeão (que é o perfil mais bem preenchido, último nível, o ideal), carta de apresentação objetiva e linda. Eu tinha plena consciência de que se ela tivesse contribuído mais, o material ficaria ainda mais completo.

A experiência e as grandes empresas pelas quais ela havia passado, as habilidades técnicas, o Inglês e Espanhol fluentes, MBA, Pós, etc., certamente contribuíram para a recolocação, pois, em pouco tempo, ela estava empregada. Agradeceu e disse que era por causa do CV, pois, ela sabia que nunca conseguiria colocar no papel seus conhecimentos sem a minha ajuda.

Ótimo, eu vibrei. Mas, no fundo fiquei encucada. Minha intuição nunca falha!

Não vou culpar RH, gestor, nem ninguém, uma boa entrevista poderia ter sido feita para captar estas “dificuldades de comportamento”, mas Recrutador e Gerente são gente, não têm bola de cristal, portanto. Isso acontece, não se trata de um programa de computador em que se imputam dados para um processo. Estamos falando de gente, com todas as suas nuances e dificuldades e de empresas, com seus processos e cultura.

Ao longo desta minha experiência como babá desta cliente (afinal, adultos não deveriam ter que ser tão cobrados por algo que deliberadamente fizeram, contratar um pacote de revisão de CV) eu confirmei algo que já havia percebido há tempos, como as pessoas pouco se comprometem com seu desenvolvimento e com ferramentas que poderão levá-las a patamares superiores.

É tanto medo, anseio, angústia e, muitas vezes vontade de apenas pagar e ver a mágica acontecer. Não julgo, apenas analiso.

Em relação a este caso, em específico, quais feridas estavam sendo tocadas com um simples processo de pensar em sua carreira? Quais sombras e monstros estavam ganhando forma?

Após o agradecimento pelo meu trabalho, decidi alertá-la ainda mais, reforçando sobre o que poderia acontecer devido ao comportamento procrastinador (dentre outras coisas), lembrando que isto em uma empresa poderia ser preocupante. Porém, eu não poderia invadir um espaço que ela não queria que fosse preenchido.

Era fato que aquilo ia aparecer de novo e de novo, até que ela desse atenção e “tratasse”. Me coloquei à disposição, mas, não houve retorno.

Em relação à oportunidade que ela conquistou, a empresa era bacana, chefe maneiro, equipe legal, projetos interessantes. O cenário de sonho para muitos.

Posteriormente, ela me procurou dizendo que havia sido demitida, apenas 5 meses após a contratação e que o líder foi muito honesto explicando os motivos. E era um bom gestor, cara honesto, justo, parceiro. A equipe gostava demais da sua forma de liderar.



E pior, ela concordava definitivamente com tudo o que eu havia falado, pois, aquilo que eu havia alertado foi igualmente dito pelo líder que “fez tudo o que podia, mas viu que esta pessoa não queria ir adiante, não entregava as tarefas, não era ativa nas reuniões, dava desculpas, não se envolvia, parecia absorta, não se preocupava, não tinha motivação (e etc.).”.

Ele ainda completou: “você tem tanto conhecimento técnico, tanto conteúdo, mas, não usa, o restante da equipe de alta performance não pode ser prejudicada e eu não vejo solução a partir de todos os feedbacks que te dei”.

Ela retornou para mim muito chorosa, mas, enfim compreendeu a necessidade de um trabalho de terapia, mais profundo e que tratasse do seu comportamento. Existem conteúdos que só um processo profundo pode desvendar.

Obviamente eu jamais deixaria de lado a importância técnica de um perfil. Tanto que isso foi o principal motivo de sua contratação e salientado na demissão pelo líder. Mas, não basta. Não basta o melhor CV do mundo, com o melhor revisor. Não basta o perfil LinkedIn campeão, o melhor treino de entrevistas preparando o profissional para enfrentar processos seletivos com segurança.

Se o comportamento deixa a desejar, é imaturo, inconsequente, dentre outras coisas, nenhum mandarim fluente vai sustentar um emprego. 

Não se trata aqui apenas de sobreviver em um trabalho, mas, de ter atitudes alinhadas ao discurso. Agir em consonância com seus valores. Saber a direção que está sendo tomada e estar consciente dela.

Quais valores ela realmente tinha? Quais caminhos e traumas estavam impedindo a entrega verdadeira para a vida que ela havia escolhido? Em uma análise superficial, podíamos julgá-la, apenas dizendo “está fazendo corpo mole”. Mas, nunca me bastam análises superficiais.

Gosto muito destas palavras de Deepak Chopra, que explicam um pouco mais do que escrevo neste artigo:

(…) nosso eu mais obscuro, o eu sombrio, onde está escondido nosso poder esquecido.

É ali, nesse local mais improvável, que encontramos a chave para destrancar a força, a felicidade e a capacidade de viver nossos sonhos. Fomos condicionados a temer o lado obscuro da vida, assim como o nosso.

Quando nos pegamos em meio a um pensamento sombrio ou tendo um comportamento que julgamos inaceitável, corremos como uma marmota ao buraco no chão e nos escondemos, torcendo e rezando para que aquilo desapareça antes de nos aventurarmos a sair novamente. (…)

Tememos, independentemente do quanto nos esforcemos, jamais conseguir escapar desse nosso lado. E, embora ignorar ou reprimir esse lado sombrio seja a norma, a verdade soberana é que correr da sombra apenas intensifica seu poder. Negá-la apenas conduz a mais dor, sofrimento, tristeza e sujeição.

Se falharmos em assumir a responsabilidade de extrair a sabedoria que está oculta no fundo de nossa consciência, a treva assume o comando e, em vez de sermos capazes de assumir o controle, a escuridão acaba nos controlando, provocando o efeito sombra. Então, o lado obscuro passa a tomar as decisões, tirando-nos o direito a escolhas conscientes, seja quanto ao que comemos, ao tanto que gastamos ou aos vícios a que sucumbimos.

Nosso lado sombrio nos incita a agir de forma que jamais imaginamos e a desperdiçar a energia vital em maus hábitos e comportamentos repetitivos. A obscuridade interior nos impede de expressar inteiramente o nosso eu, de falar nossa verdade e viver uma vida autêntica. Somente ao abraçar a nossa dualidade é que nos libertamos dos comportamentos que poderão potencialmente nos levar para baixo.

Se não reconhecermos integralmente quem somos, é certo que seremos tomados de assalto pelo efeito sombra.”

Estamos há 1 ano juntas, trabalhando em sua história. Ela autorizou que eu contasse seu caso, obviamente sem seu nome, pois, desejava que outras pessoas acordassem, que pensassem sobre si mesmas.

Nas palavras dela: “Lu, por favor, fale disso, conte que nós temos que aprender a lidar com nossa história, que temos que ser fortes para descobrir o que está por trás das coisas que fazemos, fale para elas que não é o chefe, a empresa, o lugar, marido, colegas, que devem nos servir ou mudar pela gente. Nós temos que encarar quem somos e como somos, com o que temos de belo e frágil. Você está me ajudando muito, às vezes as pessoas culpam a empresa por não as desenvolverem. Lu, eu tinha tudo na mão, o sonho e só perdi para poder me encontrar. Fale disso e quem sabe mais pessoas vão aceitar que precisam de ajuda.”

No processo, percebemos o quanto ela tinha determinadas crenças sobre ser avaliada, sobre seu potencial e ainda estamos entendendo juntas como mostrá-lo de forma adequada, sem se ferir ou ser ferida, como as situações do passado haviam feito crer.

Para encerrar, eu convido a que você pense, repense, analise e pense novamente sobre as suas ações e o que está por trás delas. Como você age no trabalho? Como é como companheiro/a de alguém, de que maneira cria seus filhos? Quais sombras tem deixado seus ombros pesados?

Convido também para uma análise do que deseja, de quem é e onde anda colocando suas forças.

Quais sombras têm lhe impedido de crescer, conquistar sonhos, avançar na vida e fazer a sua parte na sua própria história? A quem você anda culpando no lugar de assumir as responsabilidades sobre suas próprias ações?

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Conte comigo para seu processo de autoconhecimento.

#LucianeVecchioConsultora

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Se for copiar, dê crédito à autora (eu!).



Author: Luciane Vecchio

Psicóloga, Consultora de Carreira, Coach, Especialista em RH. Há 20 anos apoiando empresas e profissionais nos temas relacionados ao comportamento humano, treinamento, desenvolvimento e autoconhecimento.