Saúde: um terreno fértil para a inovação.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui, nesta data, um total de 209,11 milhões de habitantes, número este que é atualizado, em média, a cada 21 segundos.

Já os dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), através do ANS TABNET no mês de março de 2018, informam que o Brasil possui um total de 47,12 milhões de beneficiários vinculados a planos médico-hospitalares (excluiu os planos exclusivamente odontológicos).



E mesmo que as competências não sejam as mesmas, mas para se ter apenas uma noção da quantidade de brasileiros que não possuem acesso à saúde suplementar, estes seriam um total de 161,99 milhões de pessoas, ou seja, aproximadamente 4 vezes a população da nossa vizinha Argentina; 20 vezes a da Suíça; 55 vezes a da Jamaica e 130 vezes a da Estônia.

Essas pessoas possuem acesso somente ao Sistema Único de Saúde (SUS), que, como é de conhecimento de todos, não consegue fornecer o subsídio necessário à promoção à saúde e à prevenção de doenças.

A grande verdade é que o mercado de saúde, seja ele público ou privado, é um dos mais imperfeitos e complexos, e boa parte disso pode ser explicado por sua cadeia produtiva de bens e serviços, amplamente desconectada, cheia de conflitos de interesses.

Quando olhamos para essa cadeia na saúde suplementar, enxergamos que o risco está todo concentrado nas operadoras de planos de saúde, que devem respeitar e atender à regulamentação da ANS e mais: margens de resultado ínfimas (em média 2%), ausência de limite financeiro sem a figura do resseguro direto, judicialização pesada, controle de preços e reajustes, crescimento de custos acima da inflação geral, impacto direto com o envelhecimento populacional, principalmente com o advento do mutualismo (os mais jovens custeiam o uso do planos pelos mais velhos) e o pacto intergeracional (preço da última faixa etária não pode ser superior a 6 vezes o preço da primeira faixa etária), ressarcimento ao SUS, constantes incorporações de novas tecnologias, revisão do rol de procedimentos a cada dois anos, fraudes, má gestão etc.

Fonte: IESS



Por tudo isso, vislumbra-se cada vez mais para o futuro a queda do número de operadoras, com tendência forte de fusões e aquisições. Por exemplo, as de pequeno porte (com até 20 mil beneficiários) e médio porte (entre 20 mil e 100 mil beneficiários) estão sendo convidadas a se retirar, de forma voluntária, do mercado através do Plano de Escala Adequada (PEA) estabelecido pela ANS em conformidade ao estabelecido na Resolução Normativa nº 431/17.

É sabido que todo ramo de atividade possui suas forças e oportunidades, mas também suas fraquezas e ameaças, conforme pode ser analisado por meio de uma Matriz Swot cujo modelo segue abaixo:

Um bom exercício para compor uma parte de um planejamento estratégico de uma operadora de planos de saúde seria o preenchimento desta matriz em, pelo menos, cinco dimensões, que são:

  • Mercadológica;
  • Econômico-Financeira;
  • Demográfica;
  • Estrutural; e
  • Legal.

Mais especificamente na primeira dimensão, a mercadológica, arrisco dizer que (quase) todos os gestores das operadoras não vislumbravam, há alguns anos, mudanças neste mercado tão radicais como as que estão acontecendo nesses últimos.

Provavelmente a preocupação deles estava mais voltada para a concorrência entre os segmentos já conhecidos de medicina de grupo e cooperativas médicas, por exemplo. Contudo, eis que chegaram as clínicas populares e os aplicativos.

Não bastasse o mercado de saúde suplementar ser amplamente regulado e possuir um nível de risco elevado, como já destacado anteriormente, agora convive com essa nova ameaça advinda do ambiente externo.

É consabido que os clientes que detêm uma renda mais alta acabam por adquirir um plano com uma seguradora (livre escolha com a possibilidade de reembolso) ou não possuem plano de saúde e pagam tudo no particular com os melhores profissionais.

No entanto, estamos falando aqui daqueles mais de 161 milhões de pessoas que destaquei acima, dos quais, inclusive, há os que foram afetados diretamente com o desemprego e, por consequência, perderam o plano de saúde da qual estavam vinculados no antigo emprego (grande massa de perda deste mercado).

Outros são os jovens que gostariam de ter um plano de saúde OnDemand, por exemplo, somente no final de semana. Já outros gostariam de ter apenas para cobrir um certo tipo de procedimento como uma cirurgia plástica no nariz ou apenas consultas oftalmológicas. Uma espécie de Self Service de serviços de saúde.

Ao mesmo tempo que esse grupo está evitando adquirir um plano de saúde que requer pagamentos mensais, também quer evitar as filas intermináveis do SUS.

Observando esse comportamento e do interesse ao acesso os serviços de baixa complexidade, várias operadoras reviram a estratégia de vendas de seus produtos e passaram a vender planos somente ambulatoriais com o intuito de captar uma parcela dessas pessoas que estavam indo, principalmente para as clínicas populares.

Entretanto, cumpre destacar que planos ambulatoriais não cobrem internações cirúrgicas, mas estão ligados ao Rol de Procedimentos (cobertura mínima determinada pela ANS) e, assim, incluem exames de alta complexidade (ressonância magnética e tomografia computadorizada, por exemplo) e terapias de alta complexidade (tratamentos oncológicos, por exemplo), impossibilitando uma grande redução no preço, até porque no geral as internações representam entre 30% e 40% dos custos assistências totais, ficando então a grande parcela destes custos para o âmbito ambulatorial.

Além de tudo o que foi dito até aqui, temos hoje um cliente muito mais exigente que deseja um atendimento mais ágil, resolutivo e transparente. A vasta oferta de informação e a crescente conectividade entre as pessoas, ambas impulsionadas pelas tecnologias de comunicação, estão moldando um novo tipo de consumidor, convencionalmente chamado de “empoderado”: paciente que vai a uma consulta médica munido de autodiagnósticos feitos após uma busca no Google. Nesse sentido também podemos destacar as reclamações virtuais contra atendimentos ruins, que inundam as redes sociais, todos os dias.

Essa situação acabou abrindo um gap que só as Healthtechs têm musculatura para suprir, ou seja, serviços a preços acessíveis e com qualidade garantida. As Startups estão presentes em quase todos os ramos de negócios, com soluções inovadoras e que facilitam muito a vida da sociedade, e por que não na área da saúde?

As Healthtechs são impulsionadas pelos avanços técnicos, o envelhecimento da população e regulamentações governamentais, ou seja, a grande parte dos desafios das operadoras.

Atualmente, há mais de 4.200 startups cadastradas na Base de Dados da Associação Brasileira de Startups. Destas, apenas 6% são focadas em saúde.

Apesar disso, a realidade hoje, nesta área, é outra: já é possível agendar consultas a preços acessíveis apenas com um clique no Smartphone. Aquela tarefa árdua de marcar exames está muito mais simples e os pacientes têm à disposição serviços de concierge que ajudam na escolha do laboratório mais viável.

A tecnologia também está aliada na coleta dados clínicos de pacientes com câncer, trazendo informações, como: quais medicamentos estão tomando e suas reações. Esse exemplo real surge após a Roche ter adquirido a Startup Flatiron Health, fundada em 2012, por US$ 1,9 bilhão. O próprio CEO da Roche chegou a afirmar que a aquisição vai colaborar para pesquisas e desenvolvimentos no setor oncológico de toda a indústria. Isso parece familiar? Gigantes comprado as pequenas por bilhões?

O fato é que toda e qualquer iniciativa que venha a facilitar a vida dos seres humanos atreladas à tecnologia será uma tendência cada vez mais forte. Outro exemplo é a gigante Amazon. Agora está avançando no mercado de phamarcy benefit management (PBM) no exterior, criando competência para gerir milhões de vidas em modelos totalmente focados nos pacientes.

E os exemplos não param por aí. A Apple tem a intenção de transformar o seu IPhone em um prontuário eletrônico pessoal e fazer com que seus milhões de desenvolvedores disponibilizem aplicativos utilizando estes dados. Já a Google aperfeiçoa seus softwares por meio de suas competências inigualáveis em Inteligência Artificial e Big Data.

Por sua vez, o Facebook tem projetos de detecção precoce de suicídio e recrutamento para estudos clínicos. A Microsoft criou recentemente uma divisão dedicada ao setor da saúde e contabiliza o maior número de patentes.

Nesse movimento de mudança nos serviços, quem mais sai beneficiada é a população, que consegue um aumento na oferta e na qualidade, além da diminuição dos valores, possibilitando a adesão de maior número de pessoas.

As Healthtechs, definitivamente, constituem um segmento que todas as empresas e instituições do setor devem estimular, colaborar e interagir.

E isso é só o começo…